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Cerâmica precisa de forno? Entenda a queima

Joaquim Potteria
20 de ago.
6 min de leitura

Atualizado: há 7 dias

A cerâmica precisa de forno? Sim. Para transformar a argila natural em cerâmica, a queima é indispensável. Uma peça de barro pode secar completamente e parecer resistente, mas continua vulnerável à água. É durante a queima que ocorrem transformações permanentes na estrutura do material, fazendo com que ele adquira características próprias da cerâmica. Mas isso não significa que todas as peças precisem ser queimadas à mesma temperatura: tudo depende da massa utilizada, do acabamento desejado e da finalidade da peça.


Primeira queima: quando a argila se transforma em cerâmica


Depois de modelada e completamente seca, a peça de argila está pronta para sua primeira queima, conhecida como queima de biscoito. A peça resultante dessa queima também é chamada de chacote ou chacota, termos encontrados principalmente na literatura técnica e na indústria cerâmica.


É nessa etapa que a argila passa por transformações permanentes e se torna cerâmica. A peça ganha resistência, não volta mais ao estado de barro quando entra em contato com a água e, normalmente, mantém certa porosidade, importante para a aplicação dos esmaltes.


A temperatura de biscoito pode variar conforme a composição da massa cerâmica e as recomendações do fabricante.


Na Escola Potteria®, trabalhamos com duas programações de queima de biscoito: 980 °C e 1.080 °C. A escolha considera as características da massa cerâmica, as recomendações do fabricante e o processo de acabamento que será utilizado. Embora a temperatura de 1.080 °C seja a mais utilizada em nosso ateliê, também realizamos biscoitos a 980 °C, conforme a necessidade.


Mas uma peça biscoitada não precisa necessariamente receber esmalte ou passar por uma segunda queima.


Para objetos decorativos, é possível utilizar diferentes técnicas de pintura a frio, com tintas apropriadas e, quando necessário, preparação da superfície com primer e acabamento protetor.


É importante lembrar que esses acabamentos decorativos não substituem a esmaltação cerâmica e não tornam automaticamente uma peça adequada para servir alimentos ou manter contato contínuo com água.


A partir desse primeiro estágio, existem diferentes caminhos para finalizar uma peça. E é justamente essa variedade de possibilidades que torna a cerâmica tão interessante.


Monoqueima: uma queima, diferentes possibilidades


A monoqueima é uma técnica em que a peça passa por uma única queima, sem a etapa anterior de biscoito. Dependendo da massa cerâmica e dos materiais utilizados, é possível aplicar engobes e esmaltes adequados diretamente à peça ainda não queimada.


Existem engobes e esmaltes de baixa temperatura que permitem criar cores, texturas e efeitos interessantes em queimas na faixa de 950 °C a 1.080 °C, respeitando sempre as recomendações dos fabricantes e a compatibilidade com a massa cerâmica utilizada. Para objetos decorativos, essa pode ser uma alternativa bastante versátil e, em determinadas condições, mais econômica, já que elimina uma das etapas de queima.


A monoqueima, entretanto, exige atenção à secagem da peça e à compatibilidade entre a argila, o engobe ou esmalte e a temperatura utilizada. Nem todos os materiais apresentam bons resultados nesse processo.


Uma possibilidade especialmente interessante são os engobes reativos, que permitem explorar efeitos de superfície e variações de cor. Para quem deseja aprofundar seus conhecimentos, recomendamos conhecer o trabalho de Stela Kehde, que compartilha sua experiência com técnicas cerâmicas e oferece formação sobre engobes reativos.


A cerâmica não tem um único caminho. Existem diferentes técnicas, processos e possibilidades de acabamento — e experimentar faz parte dessa descoberta.


Cerâmica de alta temperatura: resistência, cores e possibilidades


Para produzir peças utilitárias, como pratos, copos, canecas e tigelas, é fundamental conhecer a temperatura de maturação da massa cerâmica e utilizar esmaltes compatíveis com ela.


Durante a queima, a argila passa por um processo de sinterização e, dependendo da composição da massa, ocorre também a formação de uma fase vítrea. Essas transformações aumentam a resistência da peça e podem reduzir significativamente sua absorção de água.


A temperatura adequada não é necessariamente a mais alta: é aquela que permite à massa atingir a maturação recomendada pelo fabricante, considerando também o esmalte e o ciclo de queima.


Na Escola Potteria®, trabalhamos com diferentes massas cerâmicas da Terra Nova, como Branca Premium, Everest, Sibéria e Fogo Direto, e da Pascoal, como Tabaco e Bianca. Cada uma apresenta características próprias que influenciam tanto a formação da peça quanto o resultado dos esmaltes.


Pela nossa experiência na Escola Potteria®, as massas Branca Premium e Everest, da Terra Nova, apresentam uma excelente reprodução das cores dos esmaltes, assim como a Bianca, da Pascoal. Já a Sibéria, da Terra Nova, apresenta pintas associadas à presença de manganês, que podem interferir significativamente nos resultados dos esmaltes, principalmente os reativos, proporcionando efeitos bastante particulares.


Em nosso ateliê, utilizamos como referência uma temperatura de 1.240 °C para a queima de esmaltação, respeitando a compatibilidade entre massa e esmalte. Trabalhamos frequentemente com esmaltes da Gaia e da Arte Brasil.


Também utilizamos esmaltes de marcas importadas, como Mayco, Amaco e Laguna, encontrados em fornecedores especializados, como a Zeramics.


Embora algumas dessas linhas sejam formuladas para temperaturas inferiores às utilizadas na Potteria, nossa experiência com os produtos que testamos tem sido positiva. Não observamos problemas graves de escorrimento nos esmaltes convencionais, mas existem diferenças perceptíveis nas cores e nos efeitos. Alguns esmaltes reativos, por exemplo, podem apresentar resultados mais uniformes ou perder parte do efeito esperado.


Os esmaltes do tipo flux exigem cuidados especiais por sua maior fluidez. Para determinadas peças com esmaltes importados, também adotamos uma estratégia de posicionamento no forno: utilizamos regiões que, em nossos testes, apresentam temperaturas ligeiramente menores.


É importante lembrar que os resultados dependem da composição dos materiais, da curva de queima, do resfriamento e até da posição da peça no forno. Por isso, testar é uma etapa essencial do trabalho cerâmico.


Terceira queima: ouro, decalques e pintura em porcelana


Além das queimas de biscoito e esmaltação, existe a possibilidade de realizar uma terceira queima, utilizada para aplicar determinados acabamentos decorativos sobre peças que já foram esmaltadas e queimadas.


Entre as possibilidades estão aplicações de ouro, cromo, bronze, lustres metálicos, pinturas sobre esmalte e decalques cerâmicos, técnicas muito utilizadas também na decoração e pintura em porcelana.


Na Escola Potteria®, trabalhamos com uma programação de terceira queima entre 750 °C e 780 °C, para materiais compatíveis com essa faixa.


Nessa etapa, os produtos decorativos são aplicados sobre a superfície já esmaltada e passam por uma nova queima, permitindo a fixação dos desenhos e efeitos.


As temperaturas podem variar conforme o fabricante e o tipo de decoração, por isso é importante verificar as recomendações específicas de cada produto.


Essa é mais uma demonstração das possibilidades da cerâmica: uma peça que já parecia finalizada pode receber novos detalhes, cores e acabamentos em outra passagem pelo forno.


O forno é técnica, mas também é transformação


Na cerâmica, o forno não é apenas um equipamento utilizado para finalizar uma peça. Ele faz parte do processo criativo e influencia diretamente sua resistência, suas cores, texturas e possibilidades de uso.


Da primeira queima à maturação da massa, cada temperatura produz transformações diferentes. Mas o processo não termina quando o forno atinge sua temperatura máxima. O resfriamento também interfere nas cores, na cristalização e nos efeitos dos esmaltes.


Um exemplo fascinante são os esmaltes azuis de ferro. Em nossos próprios testes na Escola Potteria®, observamos que um esmalte azul de ferro desenvolvido no ateliê pode se transformar em um lindo tenmoku quando incluímos, durante o resfriamento, um patamar de 30 minutos a 1.050 °C.


Esse resultado demonstra como a curva de resfriamento pode modificar profundamente a aparência de um esmalte. Dependendo da formulação e das condições da queima, as cores, a cristalização e os efeitos podem mudar significativamente, mesmo quando utilizamos a mesma receita.


Por isso, compreender como funciona uma queima é tão importante quanto conhecer a composição de um esmalte. O mesmo material pode apresentar cores, brilhos e efeitos completamente diferentes conforme a temperatura atingida, o tempo de permanência e a velocidade de resfriamento.


E talvez uma das partes mais fascinantes da cerâmica seja justamente essa: mesmo com conhecimento técnico, planejamento e experiência, o forno ainda pode nos surpreender.


Na Escola Potteria®, acreditamos que conhecer os materiais e compreender suas transformações é tão importante quanto aprender a modelar. Por isso, incentivamos nossos alunos a experimentar, observar os resultados e descobrir seus próprios caminhos na cerâmica.


Precisa queimar suas peças de cerâmica?


A Escola Potteria® também oferece serviços de queima para ceramistas que não são alunos da escola.


Realizamos queimas de biscoito, esmaltação em alta temperatura e terceira queima para acabamentos especiais, incluindo pintura em porcelana e decalques, conforme a compatibilidade dos materiais e nossa programação de forno.


Entre em contato com nossa equipe para consultar as condições, temperaturas disponíveis e prazos.

Porque a cerâmica começa nas mãos, mas se transforma no fogo.



 
 
 

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